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BREJO
Página mantida por Rossini Reis*.
Por definição, toda música popular produzida no Brasil é música popular brasileira. Assim, toda obra musical criada por compositores populares desde a música gauchesca do sul, a música sertaneja do sudeste, o samba e o pagode das grandes cidades e favelas, o baião, o axé e o forró nordestinos, a música de raízes indígenas do centro-oeste e do norte e também o rap, o pop-rock, o funk e a dance music nacionais das baladas deve ser considerada música popular brasileira. No entanto, a sigla MPB parece não ter o mesmo significado do que sugerem as iniciais da expressão música popular brasileira. Com efeito, se hoje um anúncio divulgar que em determinada data, hora e local haverá um show de MPB, ninguém vai imaginar que ali haverá apresentação de música sertaneja, forró ou pagode, ainda que esses gêneros sejam genuinamente brasileiros. Para entender um pouco essa problemática, vejamos como nasceu a expressão e a sigla. A SIGLA - A concepção de música popular brasileira apareceu no Rio de Janeiro em meados dos anos 60 entre músicos, literatos, atores e intelectuais de esquerda, alguns vindos do CPC - Centro Popular de Cultura, fundado em 1961 por estudantes ligados à UNE - União Nacional de Estudantes e fechado em 1964 com o golpe militar. Havia entre esses estudantes um grupo de quatro rapazes que se conheceram em 1963 e formaram, em Niterói, o grupo músico-vocal Quarteto do CPC. No ano seguinte, com o advento do golpe militar e a conseqüente proscrição da UNE e do CPC, o grupo mudou o nome para MPB-4. Aquiles Rique Reis, membro do quarteto, acredita que esta foi a primeira vez que a sigla MPB foi usada. Aqueles músicos, literatos, atores e intelectuais de esquerda que haviam arquitetado a concepção de música popular brasileira acabou também por adotar a sigla, que revelava a perspectiva que orientava aqueles intelectuais e que se caracterizava por criar uma linguagem artística compatível com os ideais de brasilidade, em oposição ao que era considerado como o avanço da interferência estrangeira em nossa cultura. Essa concepção era alicerçada nas manifestações culturais dos segmentos populares. Assim, o desenvolvimento da MPB deveria utilizar elementos considerados populares e nacionais. Os músicos e compositores ligados ao momento da criação da MPB, como Chico Buarque e Edu Lobo, geralmente pertenciam a uma classe média intelectualizada e politizada. O FINO DA BOSSA E A JOVEM GUARDA - A sigla MPB havia surgido justamente na época dos festivais e, como vimos, compreendia canções baseadas na tradição brasileira e eram bem distintas do rock nacional, que era considerado pelos universitários e intelectuais de esquerda produto alienante do imperialismo ianque. Assim, a Jovem Guarda, comandada por Roberto Carlos e descendente direta do rock’n’roll internacional, era vista como um produto adolescente e alienante. Um festival chegou a proibir o uso de instrumentos elétricos e, em São Paulo, chegou a haver um protesto contra a guitarra, tida como símbolo da interferência estrangeira. Na televisão, entre vários outros, dois programas gerados em São Paulo e de abrangência nacional disputavam a audiência dos telespectadores e representavam de modo admirável as duas correntes: O Fino da Bossa, apresentado por Elis Regina, Jair Rodrigues e Zimbo Trio, era o programa mais representativo da MPB daqueles tempos. O outro programa era a Jovem Guarda, liderado por Roberto Carlos, cujo sucesso todos conhecem. Assim, as preferências musicais do público urbano brasileiro se dividia entre a MPB, aí incluída a bossa nova, e a Jovem Guarda, com o rock e o som das guitarras elétricas importadas. Eram, por assim dizer, compartimentos estanques. Não havia comunicação muito amistosa entre eles, nem entre os artistas, nem entre o público. A TROPICÁLIA - Essa divisão entre música brasileira e estrangeira se complicou com com o aparecimento da Tropicália, movimento de curta duração, mas cujos efeitos atravessaram décadas. De 1967 a 1969, Caetano Veloso e Gilberto Gil, bossa-novistas comprometidos com o regionalismo, abandonaram aquele purismo exacerbado dos emepebistas e, com uma nova proposta, incorporaram a Jovem Guarda com suas guitarras elétricas, cabelos longos e trajes psicodélicos, adaptaram elementos do rock à sua música e demonstraram que aquele purismo era xenofobia. Lembra-se de “Alegria, Alegria”, marchinha de Caetano Veloso, interpretada por ele mesmo no Festival da Canção de 1967 acompanhado por aquele grupo de cabeludos chamado The Beat Boys e toda aquela sonzeira de guitarras elétricas distorcidas? Pois é! “Alegria, Alegria” foi uma bela versão tropicalista de “A Banda”, marcha comportadinha de Chico Buarque. Com tudo isso, a Tropicália, sem intenção, contribuiu para o declínio da Jovem Guarda. O Fino da Bossa também desapareceu. O bom é que todos saíram ganhando, pois os representantes desses movimentos culturais — Bossa Nova, Jovem Guarda e Tropicália — foram se multiplicando e se disseminando no meio do público, fazendo com que, aos poucos, fosse desaparecendo aquelas barreiras divisórias entre os gêneros e as pessoas. A Tropicália veio ensinar também que a entrada de produtos culturais internacionais era inevitável. Já que não era possível impedir a entrada no país de produtos culturais estrangeiros, era preferível uma assimilação crítica e uma tradução conseqüente de sua arte do que uma imitação irrefletida. GLOBALIZAÇÃO - O vocábulo “globalização” pode ser bem mais recente, mas sua realidade é antiga e seus efeitos já se faziam sentir havia muito, também na música popular, especialmente depois da popularização do disco e do rádio durante as primeiras décadas do séc. XX. Ademais, que mal pode haver em se absorver, de modo crítico e refletido, o que tem qualidade? Com o passar do tempo, a sigla MPB foi perdendo o significado original. Aliás — é bom que se diga — ninguém é dono duma sigla, nem da música e nem da arte. Não é viável nem conveniente engessar, por decreto, a pureza de um determinado estilo. Seria muito chato se isso fosse possível. Pelo contrário, como as ciências e o conhecimento, a arte é dinâmica, e é preciso que seja assim. A arte é a expressão de um grupo numa determinada região e época. Ora, os grupos se modificam, as regiões geográficas se modernizam e os tempos se sucedem. Por isso, a questão da MPB é mais semântica do que filosófica ou ideológica. QUE MPB? - No início deste artigo foi proposta a questão: O que é e o que não é MPB. Sabemos o que foi. Hoje, já não conseguimos definir o que seja. Se por MPB devemos entender toda a música produzida no Brasil, dada a grande variedade de estilos existentes, a sigla não significa mais nada. Se por MPB devemos entender a bossa nova e toda aquela produção de Tom Jobim, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, João Donato, Luiz Bonfá, Chico Buarque e outros, precisamos perguntar se devemos deixar de fora — o que parece absurdo — os tropicalistas Caetano e Gil e seus pares. E os contemporâneos? Devemos ou não incluir na lista da MPB os trabalhos de Ana Carolina, de Zélia Dunkan, de Paulinho Moska, de Rita Lee e de Marina Lima? E os roqueiros e rapers, fazem MPB? Se a MPB representa algum estilo específico, que estilo é esse? RAUL E RITA - No final dos anos 60, alguns intelectuais e críticos falavam numa tal “linha evolutiva da música popular brasileira”, o que levou Raul a anotar em suas deliciosas “Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”: “Acredite que eu não tenho nada a ver / Com a linha evolutiva da música popular brasileira / A única linha que eu conheço / É a linha de empinar uma bandeira”. E Rita Lee, nossa roqueira-mor não deixou por menos em "Arrombou a Festa": "Ai, ai, meu Deus / O que foi que aconteceu / Com a música popular brasileira?" HOJE, NA PRÁTICA - Em algumas lojas de discos, a seção de MPB compreende toda a produção musical que não se enquadra na música internacional. E há rádios especializadas em gêneros específicos como o rock, o rap, a MPB e a música clássica. Parece que, de modo geral, o rock e suas ramificações tendem a ser excluídos do rótulo MPB. Mas já ouvi pessoas considerando a música sertaneja como MPB. E então? A verdade é que é difícil definir o que é e o que não é MPB hoje, pelo simples fato de que cada um tem uma idéia diferente do que seja MPB. É claro que a sigla continua viva e continuará assim por muito tempo. Enquanto isso, vamos sempre ter de perguntar a quem nos falar de MPB: "A que MPB você se refere?"
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Edgar Nascimento -
http://www.edgarnascimento.mus.br/art70321.htm
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